quarta-feira, 28 de novembro de 2018

POEMA DE AMOR


POEMA DE AMOR

abro as janelas do meu quarto
sem vidros nem bambinelas...
subo a montanha das rosas.. .rubras, floridas,
voo nas asas do vento,
pinto-me de imaginação,
xaile rubro flamejante de paixão...
fogo que arde sem se ver...
franjas que se enrolam em ardência
dor que desatina sem doer...

emergindo em espirais de sonho aspergido,
viva está toda a lembrança
desses xailes lindos, belos...
moldura para meus cabelos!...

desço pelos raios de sol,
plena de luz refulgente,
num contentamento descontente
caminho solitária entre a gente!...
atrás, o esconderijo do sol
já no Ocaso:
- escreve um poema de amor...
antes que a noite avance
prenhe de mistérios, de jóias ou luar!...

oh! Janelas de meu quarto
quem vos pudera rasgar!...

- escreve um poema de amor...
há pouco rubro o Sol!..


Maria da Conceição Afonso Morais
 in “No sitio do Coração”

sábado, 3 de novembro de 2018

NAS HORAS CAÍDAS


NAS HORAS CAÍDAS

Há mil sítios que me reclamam
Não quero ir

Há mil lugares
Mil batalhas
Mil requisitos
Que dizem me necessitar
Não quero ir

Ha mil dias mil vidas mil momentos
Que proclamam serem meus
Não quero ir

Há mil historias
Mil contos
Mil novidades
Noticias
Eventos
Talvez um poema
Um casamento
Uma primeira comunhão
Aquela adiada reunião...
Não quero ir

Há um povo
Uma cidade inteira
Um mundo pedindo a minha presença
Não quero ir

Há passarinhos no jardim
Chamando por mim
A Melra cantando o meu nome
em todas as línguas da natureza
Não quero ir

Há uma árvore que deu fruto
Só porque eu lho pedi
Agora me convida a seu agridoce
Não quero ir

Há uma memoria que chama de dentro
Um bater quase inescapável
Fura os caminhos por dentro
Conhece atalhos aos ouvidos
E todas as formas de sedução
Não quero ir

Há um ponto final no sofrer
Umas curvas e uma reta
Que termina em cascata de vento
Que me convida ao silêncio
Ao nada de mim
Ao zero de todos os demais
Ao sem recordações
Ao sem recordações
Ao sem recordações...
Um flutuar no éter
Sem peso e sem pesar

Aí sim, quero
Quero ir !

Mas não vou
Fico aqui atada à minha determinação
De beber os dias de fel
Sem gosto nem apetite

Determinada a obedecer o viver
E logo então talvez vá
Para onde, não sei
Talvez escolha visitar um pensamento
Depois quem sabe...
Talvez me arrisque a sair ao jardim
E mais logo na tarde acompanharei alguém
A tomar café na cidade ou vinho ou água
Nestes dias sem paladar...

E de repente o querer voltará
O querer voltará
Eu sei que voltará

Mas por enquanto vou ficar aqui
Quietinha, e calada
Até senti-lo chegar
Vir mexer no leão do peito.

Concha Rousia 
outubro 2018

Tertúlia na Raia I - 2016






































POEMA DE AMOR

POEMA DE AMOR abro as janelas do meu quarto sem vidros nem bambinelas... subo a montanha das rosas.. .rubras, floridas, voo nas asas...