NAS HORAS CAÍDAS
Há mil sítios que me reclamam
Não quero ir
Há mil lugares
Mil batalhas
Mil requisitos
Que dizem me necessitar
Não quero ir
Ha mil dias mil vidas mil momentos
Que proclamam serem meus
Não quero ir
Há mil historias
Mil contos
Mil novidades
Noticias
Eventos
Talvez um poema
Um casamento
Uma primeira comunhão
Aquela adiada reunião...
Não quero ir
Há um povo
Uma cidade inteira
Um mundo pedindo a minha presença
Não quero ir
Há passarinhos no jardim
Chamando por mim
A Melra cantando o meu nome
em todas as línguas da natureza
Não quero ir
Há uma árvore que deu fruto
Só porque eu lho pedi
Agora me convida a seu agridoce
Não quero ir
Há uma memoria que chama de dentro
Um bater quase inescapável
Fura os caminhos por dentro
Conhece atalhos aos ouvidos
E todas as formas de sedução
Não quero ir
Há um ponto final no sofrer
Umas curvas e uma reta
Que termina em cascata de vento
Que me convida ao silêncio
Ao nada de mim
Ao zero de todos os demais
Ao sem recordações
Ao sem recordações
Ao sem recordações...
Um flutuar no éter
Sem peso e sem pesar
Aí sim, quero
Quero ir !
Mas não vou
Fico aqui atada à minha determinação
De beber os dias de fel
Sem gosto nem apetite
Determinada a obedecer o viver
E logo então talvez vá
Para onde, não sei
Talvez escolha visitar um pensamento
Depois quem sabe...
Talvez me arrisque a sair ao jardim
E mais logo na tarde acompanharei alguém
A tomar café na cidade ou vinho ou água
Nestes dias sem paladar...
E de repente o querer voltará
O querer voltará
Eu sei que voltará
Mas por enquanto vou ficar aqui
Quietinha, e calada
Até senti-lo chegar
Vir mexer no leão do peito.
Concha Rousia
outubro 2018
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